Irish blood. English heart.

Por Masili.

Enquanto o país todo espera a chegada do Foo Fighters, eu pego carona numa onda um pouco diferente - uma marolinha, comparada ao tsunami de Dave Grohl, já diria nosso ex-presidente, com o retorno ao país daquele topetudo esquisitão que não saía das rádios de jeito nenhum durante os já bem distantes anos 80.

Minha ansiedade atende pelo nome de Steven Patrick Morrissey, o lendário vocalista do Smiths, que daqui a pouco desembarca por aqui. Um cara que nem todo mundo gosta, mas cuja obra exige no mínimo respeito. Eu mesmo não posso dizer muito sobre seu período de banda, porque quando criança eu detestava Smiths. Quem crescia ouvindo Guns e Metallica dificilmente se afeiçoava à banda e às suas co-irmãs, como Echo & The Bunnymen e afins. Nesses últimos tempos, notei comentando com alguns amigos que de fato a obra do rapaz exige tempo e dedicação para que o carinho floresça. Sim, Morrissey é artista pra gente velha.

Porque quando o tempo passa e você passa a buscar na música algo mais do que simplesmente ritmo - seja compreendendo uma letra, entendendo um álbum e um contexto, ligando pontos - algumas coisas passam a fazer mais sentido e a importância e profundidade de uma obra abrilhantam quem a compõe. No meu caso específico, a descoberta veio quando do lançamento de Vauxhall And I (1994), cujo single “The More You Ignore Me, The Closer I Get” embalou muito do que acontecia (e aconteceria) no meu peito dali em diante. A poesia de uma voz calma mas forte, com atitude, parecia casar com cada instante de revolução que o amor exige. Havia ali melancolia, sonho, desejo, ataque e defesa, encapsulados em três minutos e quarenta e cinco segundos de sonho acordado. Uma vertente completamente alheia ao grunge (que dominava os rádios e a então “real” MTV), que te transportava pra tempos mais puros e adequados àquilo que a agressividade não supria.



O retorno à obra do sujeito fazia-se então necessário, e redescobrir os Smiths foi questão de tempo. Mas não, não se engole facilmente um som tão claramente datado (no que se diz respeito à melodia, que mais do que conhecida, de certa forma rotulou toda uma geração), mas que agora - completado em seus contextos - parecia fazer muito mais sentido, e assim sendo, foi reconsiderado, reexperimentado e ganhou novos sabores. A admiração apenas aumentou.

E então vieram outros álbuns, igualmente fortes e significativos, mas pouco difundidos. Comparando com outros artistas, Morrissey perdeu destaque de mídia, mas não seu público, nem sua principal qualidade: a performance, apoiada e sua voz absolutamente única. Prova disso é seu último (e já com 3 anos) disco, Years Of Refusal (2009), cuja energia em nada fica devendo ao disco de quinze anos antes, que foi capaz de despertar sentimentos parecidos sempre que uma nova música vem à tona.

Envelhecer com dignidade, sendo criativo e não perdendo sua essência. É possível.

(Source: Wikipedia)

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Feb 2
9:54 am
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Cada um sabe o que é seu

Por Masili.

Ontem assisti ao Nowhere Man (O garoto de Liverpool), meio que sem querer, naqueles momentos em que a gente foge do computador por uma horas de alienação do mundo, e a TV te presenteia com algo que você gostaria de conhecer. Não que o filme em questão fosse uma pendência de vida ou morte, mas desde o dia em que matei a bola no peito e decidi me aprofundar na obra do Fab Four qualquer “novidade” sobre os quatro me traz curiosidade. Pois muito bem.

Diz um outro filme - que é um Top 3 da minha lista pessoal, Vanilla Sky - que em determinadas fases da vida você elege seu beatle favorito. Já passei por 3, com John na infância, Paul com vitórias esporádicas, e o soberano George Harrison dominando minha vida adulta. Explicações são desnecessárias, sendo essa a quarta ou quinta vez que escrevo sobre Beatles aqui. Procurem no histórico.

Voltando ao Nowhere Man, é um filme relativamente fraco. História rápida, abordagem superficial, de certa forma dispensável aos não-iniciados. Porém, o John Lennon retratado como pivô da trama e motivo da película mostra-se numa fase adolescente que pouca gente conhece, e menos gente ainda entende como se desenrolou até chegar ao líder da maior banda de rock de todos os tempos.

Além do contexto britânico óbvio - que ascende sua curiosidade musical a referências próprias e às rivais, yankees, num momento em que o rock surge na voz e na postura de Elvis, e na guitarra de Little Richard, todo um movimento forma-se perante uma mente perturbada e um coração completamente dividido entre uma tia autoritária e uma mãe ausente, mas absolutamente carinhosa e encantadora. Quando disse sobre a superficialidade do filme, digo justamente pela falta de interesse em mostrar as nuances que formam-se num jovem de quase 20 anos inserido num contexto desses.

A revolução sexual se evidencia na reação das pessoas à imagem de Presley (a rejeição de pais e conservadores, a histeria das jovens, a imagem copiada pelos garotos); no rock n’ roll como forma de transgressão total de valores; e na completa divisão de amores de John, que por vezes confunde quem assiste ao filme quanto à imagem de Julia - como mãe ou como amante.

Independente de tudo isso, está a música. E como ela é apresentada a Lennon. Mais ainda: como ela prevaleceria perante todo um universo de perturbação, inquietude, incerteza e introspecção de uma mente que não se bastava sem expressão. Estalo, limite, não se sabe ao certo quais os exatos sentimentos que rondaram o coração do ainda garoto John Lennon naqueles dias. Sabe-se somente que ele resistiu, à sua forma, a tantas mudanças, e no fim das contas a história conta-se por si. O vazio da obra em discussão poderia gerar uma certa frustração, mas minha reação natural foi sair atrás daquilo que taparia os buracos da narrativa. A conclusão é que nunca sabemos o suficiente (e nunca saberemos) sobre as pessoas. E que nunca é tarde pra descobrir algumas razões que justifiquem seu lado mais humano.

Somos todos carne e osso, regidos por um coração. Isso basta.

(Source: imdb.com)

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Jan 17
8:57 am
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Happy New Year

Por Mel.

E então, no sexto dia, Deus criou Mike Patton, e achou que estava bom, e desde então, nada no mundo consegue ser mais gostoso, perfeito e satisfatório quanto ele. E eu com apenas duas linhas já consegui garantir minha entrada no inferno com a junção de “Deus” e “gostoso” na mesma frase. haahaha

Brincadeiras a parte, queria desejar um Feliz 2012 para todo mundo, com muito Mike Patton, digo, felicidade e satisfação! E como vocês já devem imaginar, para comemorar a entrada do novo ano, vou falar de uma banda sensacional que eu descobri a pouco tempo, mas que tem me divertido muito: a Lovage.

Lovage é uma banda de trip hop – com pitadas apimentadas de soul - formada por Mike Patton, Jennifer Charles, Dan Nakamura e Kid Koala. Juntos eles gravaram um único álbum, o “Music to Make Love to Your Old Lady By”, lançado em 2001.

Sim, é o que você está pensando. A temática do trabalho do quarteto gira em torno de sexo, sátiras, tabus e fantasias. E não poderia ser diferente, pois todo mundo que conhece um pouco da vida do nosso ‘muso inspirador’, sabe tranquilamente que seu nome poderia ser Mike Sex Patton. Ui, delícia.

O álbum é excelente do começo ao fim. Batidas delicadas – com alguns gemidos estrategicamente posicionados –, e vozes inspiradas e incrivelmente sexys (tanto do Mike quanto da Jeniffer), elementos estes que tornam a audição – sozinho ou acompanhado - simplesmente deliciosa.

Infelizmente a banda só tem um álbum lançado. Rolou aquele gostinho de quero mais, hein Patton?

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Jan 1
8:01 pm
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Ho! Ho! Ho! Chucrute!

Por Masili.

E um dia entramos na Hi-Fi. Era uma loja enorme de discos que existia em frente ao McDonalds do Shopping Morumbi. O mesmo McDonalds que existe até hoje, no segundo ou terceiro piso, não lembro. Meu pai tinha uns hábitos estranhos, como de sempre comprar coisas nas mesmas lojas. Carrefour? Só na Marginal. McDonalds? O do Shopping Morumbi. E disco, só na Hi-Fi.

E ele pesca um disco bonito, com um baita coral, escrito numa língua que eu, minúsculo, sequer entendia ser desse planeta. Nenhuma criança brasileira comum tem um contato precoce com o alemão. Mas estava lá, o tal do Fischer Chöre. Foi assim. Fomos pra casa, e ele em algum momento deve ter ouvido o disco pra experimentar. Eu não sei, minhas memórias dessa época da vida são extremamente pontuais.

O que eu sei mesmo é que exatamente às 0h do dia 25 de dezembro, em todos os anos da minha infância, esse disco tocava. Uma música em especial, no momento em que eu e o Mauricio (meu irmão) estávamos longe da vitrola, ajudando minha mãe, ou fazendo qualquer outra coisa. Papai Noel havia chegado. Aqueles primeiros acordes desencadeavam sempre uma correria absurda casa adentro e escada abaixo - a mesma escada em que meus pais exigiam que descêcemos com calma e devagar, mas cuja regra parecia não valer nesse dia. A árvore de Natal magicamente lotada de presentes, todo mundo bobo e feliz olhando nossa cara de criança vislumbrada.

Chamem de idiotice, agora que somos adultos. Mas nossos Natais sempre tiveram esse toque de magia, e sempre com a mesma música. No ano em que perdemos tudo e a recessão acabou com o que havíamos construído, tivemos nosso primeiro Natal (já com uns 13, 14 anos, acho) sem presentes. Vendíamos o almoço pra bancar o jantar, literalmente. Vi meus pais chorosos, quase envergonhados, quando chegou meia-noite e não havia nada em nossa árvore. E num instante de lucidez, eu pedi: “coloca a música”. E foi um alívio, com um Natal onde somente abraços bastaram, e os filhos tiveram que bancar os pais de seus pais, dizendo e confiando que tudo iria melhorar. As vozes eram as mesmas ao fundo. O mesmo toque quase celestial que há muito invadia nossos sonhos nessa época funcionava quase como um mantra divino dizendo que aquele era um momento de descobrirmos nossos verdadeiros presentes: sermos quem éramos, e nos bastarmos uns nos outros. Nunca mais embrulhos e pacotes foram necessários, e não são até hoje.

Num mundo onde nos vemos cada vez mais céticos e convivemos com um universo hipócrita e egoísta, queria deixar aqui essa mensagem. Às vezes, precisamos sim de um pouco de magia. De um pouco de sonho. E podemos ser responsáveis por isso. Se é um momento do ano onde o coração amolece, onde não nos envergonhamos de partilhar sentimentos com um pouco mais de espontaneidade, que assim seja. Aproveite seu Natal, seu final de ano. Ignore as sentenças feitas. Faça sua própria história, e acima de tudo, acredite que algo mais é possível. Às vezes os próximos três minutos que você vai viver podem fazer toda a diferença.

Mais do que isso: musique sua vida. Faz toda a diferença. Feliz Natal, criançada. E peguem seu presente aqui, já que dessa vez nem o YouTube nem ninguém parecem ter essa música pra gente colocar aqui.

(Source: Wikipedia)

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Dec 22
8:54 am

Luz

Por Masili.

Algumas coisas na vida a gente recebe já mastigadas, prontinhas. Não precisei me esforçar pra entender a importância de um Elvis Presley, dos próprios Beatles, da revolução ocorrida no mundo entre os anos 60 e 70, até mesmo do próprio Roberto Carlos. Tudo isso já existia, quase como um consenso. E justamente essa “unanimidade” relativa a assuntos e acontecimentos dessa natureza acomoda uns e afasta outros de uma pesquisa mais aprofundada sobre os porquês. No final das contas, a gente acaba aceitando (ou não) essas realidades, e convivemos tranquilamente com isso.

Comigo foi a mesma coisa. Os Beatles são resultado da genialidade da dupla Lennon/McCartney. Fechamos com isso, ouçamos Let It Be e sigamos em frente. E eu vivia feliz com essa inocente ignorância, até um certo aniversário de não me lembro quantos anos, quando aquela moça que até o momento eu tratava como “chefa” me presenteia com esse maravilhoso tijolo laranja, que pra mim era área pra lá de desconhecida.

Ganhar um puta box bonito desses era pra atiçar qualquer curiosidade. Cheguei em casa, botei no DVD e… não rodava! Incompatibilidade de área, a danada comprou um negócio tão chique que era importado, e meu DVDzinho Gradiente não entendia a língua. Fui assistir na sala, e aí a coisa andou. Eu não sabia que show era esse - que havia sido o primeiro concerto beneficente da História (e era beneficente mesmo, de verdade), muito menos que havia sido o primeiro show a virar filme, de passar no cinema e o escambau. Mas que acima de tudo, havia sido o primeiro show do George como frontman, após o final dos Beatles. George… aquele guitarrista apagadinho que ficava ali ao lado da dupla dinâmica.

"Esse DVD deve ser esquisitão. A Yara inventa cada coisa…"

E de repente elucida-se uma realidade completamente nova. As músicas que você já conhecia com os Beatles, uma cover ou outra, o Bob Dylan ali tocando aquelas modas de viola dele, e umas músicas que você nunca tinha ouvido… tudo coisa boa. Coisa muito boa MESMO. Como um passe de mágica, aquela pulguinha da curiosidade sai do tal box laranja e vai diretamente pra cima de mim. Eu partia pra cima da história de George Harrison a partir desse momento, e bem, o resto vocês já devem ter lido aqui mesmo.

Concert For Bangladesh foi possivelmente a melhor forma de começar minha história com esse cara. Sim, a Yara sabe o que faz (eu devo a ela George, Ben Harper, Cowboy Junkies e afins - a mulher entende muito). A história em si do concerto por si só já é sensacional. Ele quis mesmo ajudar o Ravi Shankar e o povo de seu país. E como todo cara bem relacionado, chamou os amigos. Mas ao invés de montar uma rifa, fazer um churrascão ou uma festa na piscina, resolveu fazer um show. E os amigos dele traduzem imediatamente a integridade e o talento de um cara desse calibre: Bob Dylan, Eric Clapton, Billy Preston, Ringo Starr, Jim Keltner, Leon Russell, e mais um punhado de muita gente boa apareceu pra tocar. De graça. Nego tem que ser muito grande e muito bom pra conseguir uma coisa dessas.

Detalhes sobre esse show são absolutamente desnecessários. Reunir esse povo só pode dar em algo histórico. E eu poderia descrevê-lo aqui, mas imagino que assim como eu, você que gosta da boa música e por algum motivo ainda não teve contato com esse concerto, deva fazer sua lição de casa e ir atrás - seja via YouTube, seja comprando o DVD. Nem precisa ser na versão bonitona que eu ganhei. Nenhum conteúdo é capaz de superar a música de George Harrison.

Por isso mesmo, no dia em que se completam 10 anos da partida desse cara pra um plano superior, o melhor que podemos fazer é relembrar sua obra. E eu deixarei aqui pra vocês não um momento desse show, mas de outro - que juntou os amigos do cara um ano após sua morte. Sim, Eric Clapton chamou a galera mandando um e-mail que dizia mais ou menos “vamos reunir a molecada e retribuir o que esse malandro fez pela gente?”. Amigos. Sinceros, e às vezes nem tão famosos ou conhecidos. George não aparecia, Sua música sim. E quando nos damos conta de que por comodismo mesmo, por pouco não perdemos a chance de conhecer o que havia de mais essencial num ser humano dessa grandeza, respiramos aliviados. Valorizar o que existe de verdadeiro. Eternizar sentimentos. Respeitar amizades. Foi possivelmente um dos seres humanos mais iluminados que o mundo conheceu. E que bom, eu, em algum momento, também.

Brigadão viu, George. Brigado, Yara. E brigado, Beatles. Minha vida é outra graças a vocês.

(Source: Wikipedia)

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Nov 29
9:45 am
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Love, hate, love.

Por Mel.

Tenho a impressão que a maioria das grandes bandas que fizeram parte do movimento grunge nos anos 90, provenientes de Seattle, trazem inevitavelmente enraizadas em suas músicas uma melancolia pesada. Talvez, por esta razão, o Alice in Chains, a banda cuja depressão era representada de forma mais explícita e doentia, seja uma das minhas bandas favoritas.

Layne Staley, fundador e vocalista da banda morreu de overdose de Speedball. Suas composições basicamente tratavam de isolação, vício e decepções. Sentimentos muito comuns para quem já esteve no fundo do poço algumas vezes, não é mesmo?



Alice in Chains não é grunge. Alice in Chains não é a porra da bandinha que você vai no show pra bater cabeça. Alice in Chains é a trilha sonora perfeita para o seu suicídio, animal. Não é pra quem acha que já sofreu o suficiente nessa merda de vida, mas pra quem tem plena certeza. Válvula de escape.

O MTV Unplugged Alice in Chains, ironicamente é um dos albuns mais fodas que a banda já produziu. Grandes sucessos regravados em versões ainda mais introspectivas, mórbidas e depressivas. Coisa de quem tem essência.



Além de poder ajudar fuder com a sua vida, Alice in Chains pode ser uma ótima opção de Sex Tape, afinal, a mistura de amor e ódio é viciante - e inevitavelmente a que mais MATA.

Recomendo, pra quem entende do que eu estou falando.
Pra tem peito de aço.
RIP Layne.

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Nov 17
9:15 pm
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A música pela música

Por Masili.

Eu já falei sobre o The Black Crowes aqui. E falarei novamente sempre que possível, mas a proposta desse espaço é sempre que possível, oferecer algo a mais a quem o lê, pela visão de outras pessoas que aqui escrevem. Darei uma contribuição bastante pessoal hoje, e não, não repetirei a dose dos corvos. Vou falar somente de um deles, que quase sem querer apareceu na minha noite de hoje.

Chris Robinson parece saído de uma das muitas Kombis elameadas de Woodstock. Desde sua primeira aparição lá no comecinho dos anos noventa, nota-se ser um daqueles personagens que o destino fez questão de jogar numa época errada. Bem, entendendo-se por “errada” o fato dele permanecer, imagética e filosoficamente enterrado naquilo de mais psicodélico que aconteceu nos anos setenta. Não que isso seja um defeito, longe disso, mas o torna um sujeito diferenciado da multidão que o rodeia. Seu discurso e sua dinâmica, ao contrário da grande maioria que tenta de uma forma ou de outra reviver essa época, soam absolutamente naturais. Dele não se espera uma atualização visual, uma conversão à religião da moda, ou mesmo um experimentalismo musical diferente daquilo que os próprios Crowes fazem - ou seu novo projeto, denominado The Chris Robinson Brotherhood. A fraternidade que certamente não é gratuita.

Comumente eu costumo falar sobre um disco em especial por aqui. Mas dessa vez isso não será possível, uma vez que a fraternidade não o lançou. Sim, pela proposta do próprio Robinson, a intenção era “reunir uns caras com afinidade musical, que morassem perto uns dos outros, e trabalhar o material que ele vinha produzindo desde o final do último ciclo dos Crowes" (antes deles entrarem no recesso em que se encontram atualmente). Porém, ao invés de aprontarem todo esse material, lapidarem e gravarem, por que não ouvir o que as pessoas que querem conhecer esse trabalho têm a dizer? Essa foi a questão que faz o Brotherhood traçar o caminho inverso dos Crowes, cujo primeiro disco já os alavancou ao status de "grande banda". O projeto de Chris aproxima as pessoas dos músicos, e na avaliação delas, molda um show após o outro. E não são espetáculos de multidões, mas sim shows em teatros ou pequenas casas. Algo intimista o suficiente para sentir o retorno mais puro da sua música.

Mas como gostar de uma música que, a princípio, não se conhece?

Simples: o canal do projeto no Facebook divulga a cada concerto o lançamento do mesmo em formato digital, com encarte e bolachas inclusive. Você vai lá, compra o bootleg gravado diretamente da mesa de som dos caras (caso não possa ir ao show) e conhece o trabalho das crianças. O que eu obtive aqui é o show ocorrido em 17 de abril de 2011, em Visalia/CA. A tecnologia a serviço do setentismo, da forma mais adequada e correta possível.

Com isso tudo dito, ainda falta uma coisa: a música.

Como citado lá no início desse texto, Robinson é o que é. E sua autenticidade é justamente o que dá credibilidade às músicas do projeto. Instrumentais extensos, melodias marcantes mas extremamente sutis, em músicas que possuem em média 8 minutos de duração. O que poderia soar maçante torna-se um deleite, pois não existe a fórmula pronta dos grandes hits. É a música que alguns amigos fazem pra se divertir, enquanto num bar perdido no interior americano, as pessoas bebem, conversam e fumam sem se preocupar com os próximos minutos de suas vidas. Não por acaso, com músicas enormes, os bootlegs são em sua maioria triplos, com duas horas e meia em média do mais puro folk rock setentista. Folk sim, pois a puxada mais rockeira está nos Crowes. Não esperem Robinson em seus indefectíveis agudos. Temos aqui um frontman discreto e sutil, numa banda deliciosamente eficiente. A estrela é a música.

Pode ser somente um projeto paralelo. Um passatempo pra alguém que já chegou lá. Mas quem se importa com rótulos nessa altura do campeonato? Estamos sim falando de música, pura e boa. Nada mais. Ser simples talvez seja o mais complexo dos desafios. Chris Robinson tirou de letra, e da forma mais difícil pra grande maioria: sendo somente ele mesmo.

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Nov 7
10:59 pm
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Immortality

Por Mel.

O ano de 1993 viu o Pearl Jam vender mais de um milhão de discos em menos de uma semana - isso não é uma marca para poucos. Já naquela época o Pearl Jam já poderia viver de passado, como muitas bandas fizeram, continuando com a mesma fórmula que sempre deu certo, mas Eddie Vedder e sua patota jamais - durante toda sua carreira - perderam a oportunidade de experimentar novas maneiras de direcionar seu próprio som.

Foi durante este período, quando o mundo todo curtia a turnê do Vs., que o terceiro álbum do Pearl Jam foi gravado. 1994 era o ano, e o álbum era Vitalogy: nada mais nada menos que o segundo álbum vendido mais rapidamente da história (877 mil unidades vendidas em sua primeira semana). Uoooouu!

Mas chega de números e conhecimentos gerais, e vamos ao que realmente interessa. Vitalogy, para mim, é o álbum com a pegada mais tensa, e porque não revoltada? - de toda a carreira dos moços grunges. Gossard/McCready, não economizam sua atitude ‘punk’, e Dave Abbruzzese, como sempre, não poupa esforços e arregaça no braço.

O álbum começa com Last Exit, um tapa na cara da sociedade (“look ma, watch me crash / no time to question / why’d nothing last”), seguida pela fodássa Spin The Black Circle, uma homenagem da banda aos discos de vinil e as gravações antigas, que não poderia ter energia melhor.




Not for you é um ‘protesto’ claro contra a insústria musical e sobre como a juventude - daquela época, e porque não, de agora - permite que a mídia e a indústria manipulem seu gosto musical. Vedder e cia acreditam que sua música não é feita para o cunho exploratório comercial, e sim, para a pura e simples apreciação de seus fãs.

A dobradinha que segue é imbatível: Tremor Christ e Nothingman, duas músicas espontâneas, mas com uma vibe simples e maravilhosa.

Corduroy é simplesmente incrível, sua letra conta a história de um relacionamento - que não precisa ser necessáriamente amoroso -, entre duas pessoas. A agressividade da voz do Eddie nesta faixa é realmente inspiradora.

Betterman, a mais conhecida do álbum, é um dos grandes hits da banda pijamuda. É muito fácil se identificar com a letra, que se torna - para as almas mais descrentes - um hino, sem contar que cantar esta música aos berros é uma delícia. Yeah, can’t find a better… man.


Aye Davanita é um som quase experimental, reforçando ainda mais o caráter mutante da banda, que não tem como lugar comum uma zona de conforto. E para que os ainda tiverem fôlego e desejarem ser surpreendidos, Immortality, a penúltima faixa, do álbum tem potencial para tal, tornando-se uma das mais inspiradas do Pearl Jam, musicalmente e liricamente falando. É só ouvir de peito aberto.

Alguém ainda duvida que o Pearl Jam, realmente, chegou para ficar?
Ouça esse álbum aqui na íntegra, porque ele vale cada segundo.

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Oct 27
5:40 pm
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X

Por Masili.

Vs. (1993) chega dois anos após o lançamento do bombástico Ten, com a ingrata função de firmar o Pearl Jam como uma potência musical de fato, e não como mais uma “banda de um álbum só”. Não haviam sido poucos os sucessos do primeiro disco - “Alive”, “Even Flow”, “Black” e “Jeremy” tornaram-se hinos instantâneos de uma geração que nascia ali. O grunge firmava-se como um movimento musical consistente, sendo que no ano anterior a apresentação do Nirvana já era mais aguardada do que o Guns N’ Roses (que estava no seu auge) no Video Music Awards da MTV americana. E sim, em 1993 o Pearl Jam - já avesso à divulgação na mídia - também estaria lá, abrindo a então maior festa musical do planeta.



O disco não teve a mesma divulgação massiva do primeiro álbum, talvez pela ojeriza do próprio Eddie Vedder por mandar videoclipes pra emissora. Pearl Jam já naquele momento firmava-se como uma banda de palco, com suas músicas tendo como maior canal de propagação o rádio e seus fãs. Sim, vendia-se discos naquela época, e Vs. vendeu muito bem, emplacando canções sem videoclipes - uma façanha para a época.

O álbum começa com “Go”, que dá o cartão de visitas mais coerente com aquilo que está por vir. Mostra uma banda com fôlego e fome, rapidamente demonstrada em sua emenda. “Animal” torna-se quase uma necessidade dali em diante nas apresentações dos caras, tamanha a visceralidade e energia empregadas. Uma cacetada, que é aliviada logo após, no possível maior sucesso do disco. “Daughter” é figurinha carimbada, de certa forma manjada até, mas sem dúvida pra lá de bem-feita e merecedora de seu rótulo pop.



Chega então a irresistível “Glorified G”, que exige acompanhamentos corporais - seja cantando o refrãozinho grudento, seja batendo o pé, as mãos ou a cabeça, e na minha opinião uma das grandes provas da diferença entre a banda e as outras contemporâneas. O Pearl Jam é sim uma banda do movimento, mas não deixa que a tosquice (no bom sentido - “Go” e “Animal” são toscas) sobreponha a capacidade melódica e de certa forma pop de suas canções, justificando aí sua longevidade e atemporalidade diante de outras bandas daquele momento. Em seguida, “Dissident” chega num riff maravilhoso, e até hoje arrepia os poucos cabelos que restaram. Uma musicássa, que todo mundo deveria escutar pelo menos uma vez na vida.



"W.M.A." traz um experimentalismo esquisito, mas que funciona de reflexo pra algumas coisas que foram feitas mais pra frente pelos rapazes, sendo emendada por "Blood", que traz de volta a sujeira que o grunge pede para que uma banda se encaixe no movimento, com Eddie Vedder se esgoelando nos vocais. Nada próximo ao então "pop" declarado lá em cima quando em "Daughter". Sim, a banda é polivalente e não vive de hits de rádio…

A absolutamente fantástica “Rearviewmirror” chega na sequência, e vale o disco. Com uma linha de baixo impecável, a melodia vem numa crescente até a explosão do refrão e segue ladeira abaixo até o final. Possivelmente a maior prova da energia do Pearl Jam naquele momento da sua história. “Rats” recua um pouco a energia, e da mesma forma, muda o tom sem perder o conjunto. Os caras não temem as variações, e isso só reafirma a consistência da banda, que novamente cede aos violões na igualmente (agora) manjada “Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town”, normalmente tocada ao vivo quando a garrafa de vinho de mr. Vedder já está próxima do final. Pra diversão, sim…



"Leash" faz a liga entre as canções de Ten e o novo álbum, deixando claro que sim, é a mesma banda a tocar no novo disco. As semelhanças sonoras são evidentes, e o terreno é preparado para seu fechamento. “Indifference” chega a ser quase sombria, e deixa um quê de dúvida sobre qual será o próximo passo dos sujeitos. Uma música absolutamente introspectiva e forte, que esclarece aos que ainda duvidavam sobre quem era o Pearl Jam e o que eles fariam dali em diante. Novos passos haviam sido dados, mas a estrada mostrava-se felizmente longa e inexplorada. Alguns diferenciais estava em Vs., mas certamente outros viriam a seguir. E vieram. Mas isso é outra história, pra um outro texto.

Por enquanto, deliciem-se.

E se você quer mesmo ouvir o cd inteiro (particularmente, eu acho que deveria, pra não chegar no show e ficar com aquela cara de “só conheço três”), vai treinando aí e aumente seu repertório. Com coisa boa, nunca é demais.

Clica aqui e mande bala.

(Source: Wikipedia)

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Oct 26
10:01 am
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Fazendo os barbas

Por Masili.

Esses discos-tributo normalmente têm sabor de salsicha em lata. Daquela que você compra no supermercado porque a embalagem é bonitinha, e a foto tem cara daquele grelhado inesquecível. Aí você abre, experimenta e vê que está mesmo é engolindo comida de cachorro. Dali pra nunca mais é um pulinho. Pois é… a gente já sabe que nem tudo que parece é, e de uns tempos pra cá eu ouvi sobre um tal tributo que estavam organizando em homenagem ao ZZ Top. Um arrepio percorreu minha espinha.

Sim, pois homenagear ao ZZ é mais ou menos como fazer cover do Ramones: parece fácil, mas uma derrapada e a coisa fede de um jeito inaceitável. Os caras são mestres de riffs, melodicamente monstruosos e com uma personalidade que exige - além de diversão - muito respeito. Juntar tudo isso sem parecer cópia, e ao mesmo tempo conseguindo manter a essência com alguma dignidade e identidade é tarefa daquelas bem cabeludas. E de repente, cai aqui o disco na minha mão.

Grata surpresa.

Os nomes não parecem tão gabaritados assim logo de cara (sim, metade dos nomes da capa parecem um tanto desconhecidos ou encostados), mas a coisa flui assim que aperta-se o “play”. The M.O.B. é um projeto que reúne Steven Tyler, Mick Fleetwood (Fleetwood Mac) e Jonny Lang, e é ele o responsável pela fortíssima abertura com “Sharp Dressed Man”. Resultado óbvio: uma puta versão. O mesmo acontece com “Gimme All Your Lovin’” nas mãos do Filter. Em ambos os casos, as bandas preocuparam-se em preservar as principais características desses dois hinos - no caso do Filter, com um pouco mais de ousadia. Grace Potter & The Nocturnals versionam “Tush”, e um vocal feminino cai como uma luva nessa maravilha.

"Legs" aparece numa versão do Nickelback, devidamente bem cuidada - uma música que não há o que se errar, diga-se de passagem. É mais ou menos como revisitar “Rock N’ Roll All Nite” ou “Smoke On The Water”. O sempre ótimo Wolfmother carrega “Cheap Sunglasses” numa das melhores versões do disco - certamente por ter bebido e muito da fonte dos barbudos. A melhor música do ZZ (minha opinião) chega com o excelente Duff McKagan’s Loaded: “Got Me Under Pressure” permanece devidamente destruidora, com a devida pegada punk da banda. O ex-baixista do Guns (e guitarrista do Loaded) arrebenta e honra o trio.

"Beer Drink" é cometida pelo ótimo Coheed and Cambria, e eu fico feliz de ver que algumas bandas permanecem sem medo de deixar as guitarras mixadas lá em cima. Mastodon toca “Just Got Paid” numa versão que em muito lembra as músicas do “Revenge”, do Kiss. Da mesma forma, engrossa o caldo, que logo é jogado pelo ralo no grande erro do disco.

Gostaria de saber quem é o gênio mercadológico que sugere Wyclef Jean pra um disco/tributo ao ZZ Top. “Rough Boy” é assassinada a golpes de colher de chá, numa batida eletrônica ridícula. Equivale a chamar Carlinhos Brown pra abrir um show do Metallica. Pule a faixa sem medo…

…e caia na ótima versão do Daughtry para “Waitin’ for the Bus”. Versão copy/paste mesmo, mas bem boa, que com certeza orgulhou os senhores. E fechamos o disco com a mais do que necessária “La Grange”, numa versão matadora de Jamey Johnson. Não é qualquer Zé Mané que toca esse clássico, e ela ficou em ótimas mãos.

No geral, um bom disco mesmo, até um pouco acima da média nesse universo de homenagens marqueteiras que a gente vive esbarrando por aí. ZZ Top é banda pra se respeitar e muito, e assim sendo, fica feito o dever de casa. Não é obrigatório, mas é um ótimo passatempo.

(Source: Wikipedia)

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Oct 25
2:14 pm
17 notes

A triangulação está completa: Allan, Masili e Mel. Juntos, falando sobre música. Sem rótulos.

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